Arabescos Agosto 2002 :: Um muito bom Garanhão
Outro dia o Luiz Fernando me escreveu um e-mail perguntando
qual o valor de um "muito bom garanhão"
Árabe. Confesso que parei para pensar por um
tempo. Afinal, não se pode responder a isso de
forma leviana. Tive vontade de enviar milhares de perguntas
de volta, para poder estabelecer um quadro melhor daquilo
que ele estava procurando saber. Outras questões
também se impuseram. Se por um lado, as maravilhas
do mundo digital, da informação imediata
ao nosso dispor via Internet, nos obrigam a ser objetivos,
elas também são cruéis no sentido
de não sabermos exatamente quem é a pessoa
que está do outro lado da linha, quais são
seus anseios e objetivos. Meu primeiro impulso ao me
dar conta de que não podia ficar tecendo muitas
firulas foi dizer que um "muito bom garanhão"
Árabe não tem preço! Vejam bem:
a equação muito + bom + garanhão
já coloca três adjetivos reunidos num único
indivíduo. Aprendemos que um garanhão
é aquele cavalo destinado à reprodução.
Se assim é, ele tem que ter obrigatoriamente
qualidades especiais que devem ser transmitidas a seus
filhos.
Ele não é um cavalo qualquer! Mas será
que o Luiz Fernando queria um reprodutor, ou simplesmente
um macho que pudesse servir como montaria?
Existem detalhes imprescindíveis na escolha de
um cavalo, como sua saúde, sua estrutura, a ausência
de vícios... Um dado a mais que deve ser considerado
com muito cuidado é o pedigree do animal. Como
eram seus pais, eles tinham ou têm expressão
como reprodutores, foram ou são importantes dentro
do criatório da raça Árabe? Considerando
que o Brasil hoje é um grande exportador desse
cavalo, sua procedência é aceita internacionalmente?
E que tipo de animal a pessoa quer criar, só
de esportes,
e se positivo, qual esporte? Enduro, salto, corrida...
E mais: "muito bom" é sinônimo
de excepcional. O que deve significar que seus filhos
também são bons, premiados, reconhecidos,
aplaudidos, cobiçados.
O garanhão tem que ser comprovado pela sua progênie.
Ora, o cavalo Árabe pode se iniciar na reprodução
após os dois anos e meio de idade, período
no qual foi cuidado com todo amor e carinho que merece.
E, se ele é muito especial, terá então
participado de exposições da raça
e ganho prêmios importantes. Seu dono terá
investido tempo, dinheiro, expectativas e sonhos nesse
cavalo. E toda essa função não
pára por aí. Pronto que esteja para cobrir
as matrizes (não adianta cobrir só uma
égua, porque uma andorinha não faz verão,
certo?) que lhe foram destinadas, temos o tempo de gestação
dos longos onze meses. Depois, todo potrinho ao nascer
é lindo! É hora então de observar
o desenvolvimento dos filhos: são fortes, saudáveis,
estão dentro do padrão ideal da raça,
eles agradam a muitos, a poucos, a todos? E o gosto
pessoal do criador também tem um peso importante:
ele gosta de tordilho, alazão, castanho, o calçado
branco, os cascos negros? Detalhes, detalhes, e mais
detalhes.
Um garanhão da raça Árabe pode
atingir o preço de 500 mil dólares. Poderíamos
citar vários exemplos. Agora, é possível
comprar um exemplar mais barato? Com toda certeza. O
plantel brasileiro tem qualidade superior, é
respeitado no mundo todo, compradores até das
Arábias (aqueles que geraram e apresentaram ao
mundo a maravilha do cavalo Árabe) circulam por
aqui escolhendo animais que vão ser reprodutores,
de montaria, de exposições.
É fácil escolher um animal desses? Definitivamente,
não. Mas ninguém pode
negar o grande prazer que existe na procura, no estudo,
na pesquisa, nas
tentativas, nos erros e acertos do caminho da criação.
Como eu disse para
nossa amiga Herta, não há satisfação
maior do que ser acordado no meio da
noite para assistir ao parto de uma égua que
traz ao mundo um potro seu.
Mesmo que, muitas vezes, a gente fique congelando numa
noite de inverno
durante três horas e o alarme tenha sido falso.
No dia seguinte, depois de
você ter desistido de esperar, quando volta ao
pasto, lá está um potrinho, lindo, mamando,
a mãe o protegendo, de pêlo em pé,
castanho, tordilho, alazão...
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